(Uma semana daquilo a que costumo chamar de anormal normalidade. Parece confuso. E é. Definindo: algo que em tempos foi normal mas que no presente é vivido quase como se fosse a primeira vez. No fim, deixa uma sensação de satisfação mas ao mesmo tempo de estranheza. Assim é viver temporariamente numa bolha. Assim é sair temporariamente dela.)
A semana em casa foi fulcral para recarregar baterias, não só as minhas claro, mas as de todos os que estão neste barco. Uma ida à Psicóloga que restaurou a minha auto-confiança e validou que eu estava no caminho certo, psicologicamente falando; uma caminhada de uma hora a um bom ritmo que provou que eu ainda era capaz de tais simples actividades físicas; estar com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo o que me permitiu socializar sentindo alguma normalidade e banalidade, por contraponto ao que acontecia no internamento em que a visita era o momento do dia; festejos e ajuntamentos familiares sem as motivações do costume mas que soaram aos encontros do costume; fins de tarde dançantes em família só porque sim; estar presente no momento, longe das tecnologias, durante grande parte do tempo; e por fim, mas com toda a sua relevância, estar com as minhas cadelas que fielmente abraçaram os meus choros noturnos constantes presenteando-me com a sua companhia incondicional, perante a qual despi todo e qualquer bloqueio pois sabia que ali não haveria lugar a tentativas de consolo ou lágrimas de outros ao verem-me assim. Sem qualquer julgamento, mas às vezes também é bom chorar em companhia, sabendo que não vamos afectar quem está connosco e que o silêncio se fará ouvir.
Fisicamente, senti-me bem durante a maior parte do tempo, mas nos últimos dias notava o meu cansaço a ganhar protagonismo e com ele umas dores abdominais cada vez mais fortes. Na última noite em casa sabia que estava na altura de regressar ao IPO e desejava que as horas passassem rápido.
No dia seguinte, pelas 8h30 já lá estava com mala para cerca de 10 dias. Tirei a senha com o agendamento do dia e prontamente me desloquei para a sala de espera para fazer o teste do covid. Quando estava na fila com a bagagem de mão e a mochila às costas, a ouvir a máquina a chamar os números que se seguiam, transportei-me para os aeroportos que tanto quanto podia frequentava. Mais parecia as chamadas para as portas de embarque. Mas eu ainda estava longe de embarcar. Na verdade, ainda ia fazer o check-in que podia inviabilizar o internamento no caso de o resultado ser positivo. Seguia-se o próximo passo: o controlo de bagagem feito através de análises ao sangue. Posteriormente, dirigi-me às portas de embarque para uma consulta e mielograma e, de seguida, fui novamente chamada para o controlo de bagagem, pois detectaram uma anomalia e a solução era o que eu já esperava: uma transfusão de sangue. Os corredores com as placas e indicações para os diversos serviços faziam lembrar a zona de desembarque que percorremos quase como se conhecêssemos o aeroporto como a palma da nossa mão, pela velocidade a que o fazemos com a pressa de chegar à recolha da mala. Mas a viagem mal tinha começado. Ainda havia tempo para um café na Imagiologia onde tirei uma selfie aos pulmões, mas, sem grandes demoras, voltei às portas de embarque.
A chegada ao avião e a descolagem foram repletas de carinho, alegria e agradecimentos sinceros pela carta e presentinhos que deixei aos meus anjos do piso de internamento. Com recepções destas é muito fácil voltar ❤️

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