Avançar para o conteúdo principal

📝 Segunda-feira, 21 de Novembro de 2022 – Intern. dia 1


(Uma semana daquilo a que costumo chamar de anormal normalidade. Parece confuso. E é. Definindo: algo que em tempos foi normal mas que no presente é vivido quase como se fosse a primeira vez. No fim, deixa uma sensação de satisfação mas ao mesmo tempo de estranheza. Assim é viver temporariamente numa bolha. Assim é sair temporariamente dela.)

   A semana em casa foi fulcral para recarregar baterias, não só as minhas claro, mas as de todos os que estão neste barco. Uma ida à Psicóloga que restaurou a minha auto-confiança e validou que eu estava no caminho certo, psicologicamente falando; uma caminhada de uma hora a um bom ritmo que provou que eu ainda era capaz de tais simples actividades físicas; estar com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo o que me permitiu socializar sentindo alguma normalidade e banalidade, por contraponto ao que acontecia no internamento em que a visita era o momento do dia; festejos e ajuntamentos familiares sem as motivações do costume mas que soaram aos encontros do costume; fins de tarde dançantes em família só porque sim; estar presente no momento, longe das tecnologias, durante grande parte do tempo; e por fim, mas com toda a sua relevância, estar com as minhas cadelas que fielmente abraçaram os meus choros noturnos constantes presenteando-me com a sua companhia incondicional, perante a qual despi todo e qualquer bloqueio pois sabia que ali não haveria lugar a tentativas de consolo ou lágrimas de outros ao verem-me assim. Sem qualquer julgamento, mas às vezes também é bom chorar em companhia, sabendo que não vamos afectar quem está connosco e que o silêncio se fará ouvir.
    Fisicamente, senti-me bem durante a maior parte do tempo, mas nos últimos dias notava o meu cansaço a ganhar protagonismo e com ele umas dores abdominais cada vez mais fortes. Na última noite em casa sabia que estava na altura de regressar ao IPO e desejava que as horas passassem rápido.
   No dia seguinte, pelas 8h30 já lá estava com mala para cerca de 10 dias. Tirei a senha com o agendamento do dia e prontamente me desloquei para a sala de espera para fazer o teste do covid. Quando estava na fila com a bagagem de mão e a mochila às costas, a ouvir a máquina a chamar os números que se seguiam, transportei-me para os aeroportos que tanto quanto podia frequentava. Mais parecia as chamadas para as portas de embarque. Mas eu ainda estava longe de embarcar. Na verdade, ainda ia fazer o check-in que podia inviabilizar o internamento no caso de o resultado ser positivo. Seguia-se o próximo passo: o controlo de bagagem feito através de análises ao sangue. Posteriormente, dirigi-me às portas de embarque para uma consulta e mielograma e, de seguida, fui novamente chamada para o controlo de bagagem, pois detectaram uma anomalia e a solução era o que eu já esperava: uma transfusão de sangue. Os corredores com as placas e indicações para os diversos serviços faziam lembrar a zona de desembarque que percorremos quase como se conhecêssemos o aeroporto como a palma da nossa mão, pela velocidade a que o fazemos com a pressa de chegar à recolha da mala. Mas a viagem mal tinha começado. Ainda havia tempo para um café na Imagiologia onde tirei uma selfie aos pulmões, mas, sem grandes demoras, voltei às portas de embarque.
    A chegada ao avião e a descolagem foram repletas de carinho, alegria e agradecimentos sinceros pela carta e presentinhos que deixei aos meus anjos do piso de internamento. Com recepções destas é muito fácil voltar ❤️



Comentários

Mensagens populares deste blogue

📝 Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2023

     4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante.       Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...

📝 Sábado, 7 de Outubro de 2023 - 1 ano (parte 3)

  Outubro de 2022 - Semana do diagnóstico     Foi a 2 de Outubro (Domingo), a subir uma rua na Foz, que todos estes sintomas passaram a conversa séria. O meu pai dava-me um avanço de 20 metros pelo menos e, na brincadeira, disse-lhe que eu é que estava com péssima forma física. Ele não ficou convencido e perguntou-me o que eu sentia. Ao enumerar os sintomas, alarmado, disse que eu tinha de marcar uma consulta urgentemente. Perita em desvalorizar, disse-lhe que durante a semana tratava disso, pois até já estava na altura de fazer as análises anuais. Nos dias que se seguiram, acabei por não dar a devida prioridade ao assunto, refugiando-me na indecisão de a que médico/especialidade deveria ir.     Uma vez que ia ficar pelo Porto, queria ir a um Congresso de Salsa que ia haver no fim-de-semana seguinte (8 e 9 de Outubro) mas preocupava-me sentir que não conseguia dançar uma música completa sem cair para o lado a qualquer momento. E eis que na quart...

📝 Quarta-feira, 4 de Junho de 2025 - Dia Mundial da Corrida

Corrida da Mulher 2025 (25 de Maio de 2025)      Foi bom e bonito ver tanta gente ali, cada uma no seu caminho, carregando as suas histórias, propósitos, promessas. Partilhando uma coisa em comum: a sensibilização para algo que toca muitas vidas, directa ou indirectamente, de formas totalmente distintas e inimagináveis. Um bem haja a todas as pessoas que participaram a caminhar, a correr ou a ajudar. Um bem haja a todos os que de fora apoiaram. Um bem haja aos que, embora o desejassem, não puderam participar porque a vida assim quis. São também eventos destes que mostram o melhor de nós e que a vida também é bonita 🧡       E, claro, não podia deixar passar a oportunidade de agradecer a companhia e presença de duas das pessoas que mais marcaram esta fase da minha vida. A minha irmã, a minha pessoa, a minha companheira de vida ❤️ e a Cristina que logo nos meus primeiros dias no IPO, numa noite, após eu ter colocado o primeiro cateter venoso central, me deu d...