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📝 Quinta-feira, 24 de Novembro de 2022 - Intern. dia 4


(Foto tirada na Terça, dia 22/11/2022, enquanto fazia a minha terapia
 - escrever e ouvir música - depois de ter recebido a notícia de que o tratamento não tinha resultado. Poderão estar a perguntar-se "Como é que ela está a sorrir depois disto?". Não vou esconder que chorei muito, mas, assim que passou, esforcei-me por sorrir para enviar a fotografia à família e calar o meu silêncio dessa manhã, escondendo o que na verdade se passava comigo, porque ainda não estava pronta para contar.)

    Bom dia! Dormir toda mocada é outra coisa 😄 e escrever com os óculos novos também 😊
    Terça-feira foi um dia negro. Saber que o primeiro tratamento não tinha resultado, a par das dores abdominais que sentia, acabou por me deitar abaixo psicológica e fisicamente. Desde aí, quando me perguntam se me podem abraçar, eu digo "Sim, não me poupo nos abraços". Era suposto evitá-los mas... Em prol de quê? Deixou de me fazer sentido que algo tão reconfortante não pudesse estar presente no meu dia-a-dia. Nesse mesmo dia recebi uma chamada da minha primeira companheira de quarto que, numa felicidade difícil de esconder, me disse "Estou curada". Duas palavras apenas que carregam uma história cheia de luta e emoções, que, numa descrição mais aprofundada, daria uma palestra de dias. Como é lógico, não partilhei o meu ponto de situação, pois não queria preocupá-la nem estragar a felicidade do momento. Foi também dia de agradecer o presente que o pessoal do trabalho me enviou: um quadro digital com mensagens de força e ânimo, que vieram mesmo a calhar. Foram incríveis, mais uma vez. Facilitaram-me muito a vida quando lhes contei, tendo sido até proactivos na resolução de questões que viria a ter, sem eu ter chegado a pensar nelas.
    Ainda nesse dia, à noite, as dores abdominais estavam mais fortes e quando comia intensificavam-se. Quando me apercebi disso, disse que não comia mais enquanto não fizéssemos exames para perceber o que se passava. Tomei Paracetamol e Buscopan e nada ajudou. Foi então que pelas 23h00 nos dirigimos à Radiologia, atravessando os escuros e desertos corredores do IPO, num silêncio sombrio apenas anulado pelos sons da minha cadeira de rodas e dos passos de quem me acompanhou, para fazer uma TAC, que veio a confirmar um diagnóstico de Colecistite Aguda, muito certamente provocada pela quimioterapia, medicação diversa que fiz, alimentação parentérica e a pizza e chocolate que comi em casa 🙄 Tal diagnóstico levaria a uma cirurgia para retirar a vesícula, se eu estivesse em condições normais. Mas, dado o meu estado frágil, ficámo-nos pela solução de drenar o líquido infeccioso da vesícula. No dia seguinte (quarta-feira), fui colocar o dreno. Com anestesia e a mão da Enfermeira, a coisa até se fez bem. No fim ainda consegui ver o tubinho e o ponto na minha barriga - estou a ficar muito crescida! Assim que começou a drenar, o alívio da dor foi imediato, dor essa que nem a morfina na dose que me deram antes disto conseguiu tirar. Sim, estreei-me na morfina e gostei 😂 a moca é brutal! Quando digo isto às enfermeiras só se riem 😂 Juntamente com o antihistamínico, o resultado era passar o dia a dormitar e, durante a visita do dia, quase recorrer a fita-cola para não fechar os olhos, como o Tom do Tom & Jerry 😅 A dor na zona onde o dreno foi colocado era inevitável e por isso precisei de ajuda para tomar banho e para me levantar da cama. Se bem que ia tentando fazê-lo sozinha, com mais ou menos dor, para evitar ser algaliada. Durante estes dias não comi, mas também não tinha fome.
    Estar sem dores ajudou-me a olhar novamente em frente, sem pensar no caminho já percorrido, e aceitar este desvio inesperado.

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