No início deste ano, em jeito de reflexão sobre o ano passado, disse que, se pudesse, tê-lo-ia recriado. Uns dias depois, a vida deu-me a oportunidade de o fazer, mas não da forma que eu esperava, sem me conceder dois poderes essenciais para isso: a capacidade de me curar e de viajar no tempo. Com estas duas ferramentas, teria voltado atrás no tempo e ter-me-ia curado, por exemplo ingerindo um daqueles feijões mágicos do Dragon Ball, e ter-me-ia poupado a muito do sofrimento pelo qual passei. Mas parece que, por vezes, a vida ouve apenas parte dos nossos desejos e, sabendo o que sei hoje, quem me dera não ter partilhado com ela em voz alta alguns deles, pois nem todos somos bons entendedores e meias frases fora do contexto podem ser muito mal interpretadas, assim como meios desejos concretizados pode ser pior do que nenhum.
Determinada em fazer-me a vontade, à maneira dela (e quem sou eu para a julgar?), presenteou-me com um internamento, palavra que até então me fazia estremecer, mas que a 5 de Janeiro agradeci que existisse pois já não era suportável estar em casa nas condições em que estava. A medo, perguntei em que piso do IPO iria ficar e, quando responderam "Piso 10", respirei de alívio por não voltar ao piso onde passei a pior fase da minha vida. Depois de um dia num quarto partilhado que me estava a deixar algo stressada pelo risco iminente que isso representava, fui por fim para um quarto de isolamento ao qual, mal entrei, chamei de "Quarto das Artes". Com uma enorme parede desenhada e pintada com cores garridas, tinha também um amplo espaço que imaginei ser perfeito para dançar. Em dias mais cinzentos lá fora, aquelas cores faziam a alegria e boa energia perdurar naquele quarto e foi aí que percebi que gostaria que todos os quartos do IPO fossem um "Quarto das Artes".
Decorridos uns 3 dias, surgiu uma vaga no piso do qual sempre quis fugir a sete pés e, por ser mais seguro para mim, a equipa médica aconselhou-me a aceitar ir para lá, além de ter partilhado outras novidades menos agradáveis acerca do meu processo. Foi mais um dia difícil em que sofri por voltar a um sítio que fiz por esquecer, onde imaginei que, por todas as regras e cuidados que existiam, ia voltar a Julho de 2023, e onde seria praticamente impossível não relembrar aquele período que, apesar de me ter dado mais perspectivas futuras de vida, também me destruiu ao ponto de me sugar a alma e me fazer sentir nada mais além de um corpo a sobreviver. Estou há 19 dias neste quarto e fui fazendo um esforço por não olhar para o passado, com medo de o viver novamente. Ao contrário de tudo o que esperava, ao longo dos dias fui sendo invadida por uma paz e tranquilidade que há muito não sentia. Surpreendidíssima, tentei perceber de onde elas vinham. Não se tratou de ter sido forte, de ter procurado o lado positivo, mas "simplesmente" de ter deixado em casa os factores stress, preocupação, hipervigilância, planeamento pormenorizado de cada tarefa e medo, por em casa viver num contexto em que, devido a estar imunocomprometida, o meu único lugar seguro é o meu querido quarto e tudo o resto deve ser encarado por mim como um perigo. Viver assim há 6 meses tem sido um desafio e tanto e eu já vinha a acusar algum cansaço que se reflectia em pouca vontade de fazer as coisas de que gosto e algum mau humor, por vezes. Estar neste quarto de internamento de que tanto quis fugir, afinal permitiu-me respirar um pouco e estar relaxada, pois assumo este como um local seguro onde estou a tempo inteiro e, por isso, ganhei novamente espaço para ser eu e fazer algumas coisas de que mais gosto, ainda que dentro de quatro paredes. Nunca pensei dizer isto, mas, apesar de amar todos os que me aguardam lá fora, eu não tenho pressa de sair daqui. Dói reconhecer isto, mas a verdade é que, cada passo que dou para me aproximar do resto do mundo, ainda me custa uma grande fatia da minha sanidade mental, do meu conforto e do meu bem-estar emocional. No fundo, uma parte de mim, parte essa que fica inacessível a todo e qualquer ser com quem eu esteja. Não há espontaneidade, não há acção que não seja bem calculada, não há foco no momento, pois, ainda que eu saia da minha bolha, há um muro de defesa que se ergue de seguida, sem que eu o possa derrubar ou saltar, assim como é raro o momento em que não tenho uma máscara a cobrir metade das minhas expressões faciais que tão importantes considero em qualquer interacção social.
Quer a vida, mais uma vez à sua maneira, que eu aprenda duas coisas:
- não sofrer tanto por antecipação, porque ao virar da esquina podemos encontrar um arco-íris num dia que aparentava ser somente cinzento;
- elevar-me acima das minhas circunstâncias e viver, não esperando por melhores dias para o fazer.
Ter tido um agravamento da minha situação e, para todos os efeitos, ter recuado no processo, são duas coisas que ainda não consegui perdoar-lhe. De momento, não a consigo encarar de frente e estou a precisar de algum tempo de qualidade, comigo pelo menos, para conseguir pensar e reposicionar-me perante toda a nova informação que chegou. Tenho-me refugiado em livros (maioritariamente romances) que me permitem viajar por vidas diferentes e experienciar o que eu considerava serem banalidades que hoje ainda não estão ao meu alcance. E estas férias que tirei da minha vida são tudo o que eu precisava, espero eu que para voltar a reunir forças e encarar a próxima fase com o mesmo compromisso que tive até agora para com a minha recuperação, enquanto tento criar um novo espaço em que usufruo de cada dia, como fazia noutros tempos, tentando trazer-lhes alguma normalidade e voltando a apaixonar-me por cada pequeno detalhe, porque de outra forma não me faz sentido viver.
O processo de Transplante de Medula Óssea (incluo a procura de dador compatível, a quimioterapia pré-transplante e a recuperação após a infusão das células/nova medula que dura no mínimo meses) é indescritível e inimaginável para quem nunca passou por ele. Por mais que na teoria sejamos alertados para todas as eventualidades, acho que todos estamos longe de imaginar em que é que isso se traduz na prática e no dia-a-dia. Cheguei a ouvir-me dizer em voz alta: "Às vezes, só existir custa." E não, não era eu a ser dramática como achei durante algum tempo, mas algo que infelizmente outras pessoas sentiram.
Tentando ser justa com ela, a vida satisfez um dos meus desejos por inteiro e também fez deste meu quarto um "Quarto das Artes", através de duas pessoas que fizeram por deixar a sua assinatura no vidro da minha porta 🧡
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