Avançar para o conteúdo principal

📢 Sexta-feira, 21 de Outubro de 2022 - Intern. dia 15

    Quando recebemos a notícia de que temos cancro ficamos naturalmente em choque, porque consciente ou inconscientemente associamos a um fim negro que pode ser a morte. O choque inicial, o choro e outras possíveis reacções são geralmente por isso, para quem não acompanhou de perto um doente com cancro e não sabe, como se diz em bom português, a missa à metade. A verdade é que já dei por mim a dizer em plena sala de cirurgias que me sentia mais capaz de vencer a Leucemia do que de estar tranquila perante estas intervenções/mini-cirurgias. Eu que, podendo, escolhia não levar pontos por nada, nunca sequer furei as orelhas e continuo a não fazer tensões disso, e que qualquer feridinha me deixava completamente impressionada (família e amigos próximos que o digam). No espaço de uma semana vi-me a ter 3 mini-cirurgias, sendo eu uma virgem de bisturis. Voltei a colocar outro cateter central de menor duração que ao fim de 4/6 semanas vou ter de tirar, em substituição de outro por certo (contando, por isso, com pelo menos mais 3 intervenções)
     - A primeira vez já sabem como foi.
    - A segunda foi um verdadeiro pesadelo, pois estava a preparar-me para ir dormir até que um médico (que eu não chamei) me veio ver e disse que era para retirar naquele momento. Eu estava cheia de dores e não imaginava sequer como me iam conseguir dar a anestesia. Chorei tanto ou mais do que no dia em que recebi a notícia da minha doença, de tão assustada que estava. No final, o processo acabou por não ser tão doloroso quanto eu o estava a pintar, porque me deram mais tramal, felizmente, e não senti tanto a anestesia. Além disso, tive de mãos dadas a uma Enfermeira e só isso já é meio caminho andado para combater o medo.
    - Pensei eu: ao menos até à próxima quimio já não tenho de colocar outro cateter e ando mais à vontade. E eis que hoje, ao acordar, me dizem para me arranjar rápido que os médicos vêm cheios de ideias da reunião e assim podia estar pronta para tudo. Sendo que "tudo" era voltar a colocar um cateter. Depois de dois ou três dias com febres frequentes (possivelmente pela infecção causada pelo primeiro cateter) e o sistema digestivo a dar de si (efeito natural da quimio), a ida à sala de intervenções para colocar um segundo cateter era tudo o que não queria. Chorei o que tinha a chorar, dormi e consegui ir para a sala mais tranquila, sem ansiolítico e a ser a alma da festa 🥳 desta vez nem uma lágrima derramei lá, mas claro que tinha de pedir aquela mão amiga que mais uma vez me foi dada ❤️ isto graças à minha prima, uma guerreira que venceu a sua luta contra o cancro e que me ensina a falar positivamente com o meu corpo. No primeiro cateter eu dizia que não o conseguia tratar por tu, ainda, e de certa forma sinto que fui eu que o expulsei do meu corpo. Desta vez pedi a toda a gente na sala que enviasse energias positivas e dei-lhe as boas-vindas. Todos os dias vou pedir que corra tudo bem com este 🙏
Hoje já me sinto melhor e só tive febre de manhã 😌

Comentários

Mensagens populares deste blogue

📝 Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2023

     4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante.       Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...

📝 Sábado, 7 de Outubro de 2023 - 1 ano (parte 3)

  Outubro de 2022 - Semana do diagnóstico     Foi a 2 de Outubro (Domingo), a subir uma rua na Foz, que todos estes sintomas passaram a conversa séria. O meu pai dava-me um avanço de 20 metros pelo menos e, na brincadeira, disse-lhe que eu é que estava com péssima forma física. Ele não ficou convencido e perguntou-me o que eu sentia. Ao enumerar os sintomas, alarmado, disse que eu tinha de marcar uma consulta urgentemente. Perita em desvalorizar, disse-lhe que durante a semana tratava disso, pois até já estava na altura de fazer as análises anuais. Nos dias que se seguiram, acabei por não dar a devida prioridade ao assunto, refugiando-me na indecisão de a que médico/especialidade deveria ir.     Uma vez que ia ficar pelo Porto, queria ir a um Congresso de Salsa que ia haver no fim-de-semana seguinte (8 e 9 de Outubro) mas preocupava-me sentir que não conseguia dançar uma música completa sem cair para o lado a qualquer momento. E eis que na quart...

📝 Sábado, 17 de Agosto de 2024

     Uma vida que se pode chamar de louca. Não o "louca" de outros tempos, mas o "louca" destes. Que gosto dá celebrar assim a vida, vivendo-a com todas e tantas ferramentas que tenho à minha disposição hoje. Não "todas" as de outros tempos, mas "todas" as destes.     Depois de dias que, de tão preenchidos e corridos que foram, se tornaram semanas e até mesmo meses sem vir aqui ao meu querido caderno, hoje, a 17 de Agosto de 2024, não consegui terminar o dia sem expressar em palavras todas as imagens que me têm vindo à cabeça relativas a este último ano. Foi há um ano o dia em que saí, por fim, do internamento de 45 dias em que fiz o Transplante de Medula Óssea a que sempre chamei de "pior fase da minha vida", em que me encontrei despida de tudo o que me caracterizava, onde deixei de ser a que também nos dava força a nós - aqueles a quem esta maldita doença e tudo o que ela acarreta tocou: eu, a minha família, os meus amigos e os meus p...