Avançar para o conteúdo principal

📝 Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2022 - Casa 19 dias





    Bom dia! E não é que hoje, ao ir ao espelho chamar-me de esperta (😆 versão inventada, fui propositadamente ver que tal estava a minha pálpebra), vejo um tom vermelho indicativo de que a hemoglobina não estará muito baixa e a precisar de transfusão? E juro que não passei nenhum dos meus 💄 😂 Ontem estava mais branca e por isso considero isto uma vitória que merece ser celebrada!
    Quando assinava o consentimento para o novo tratamento, disse em voz alta "Esta é a minha cura". Uma crença que tinha tanto de oca quanto de esperançosa. Ainda não tinha começado, não sabia o que me esperava, mas tinha de acreditar. Estar no IPO, como todos sabem, foi melhor do que alguém imagina. Fui acarinhada todos os dias e adaptei-me a uma nova vida lá. Criei uma vida que me fazia feliz, quando não tinha sintomas físicos que impediam essa felicidade. Parabéns a mim. Provei uma vez mais o quão adaptável consigo ser. Mas, é esse o caminho certo? O que maximiza a minha felicidade? O que me pertence verdadeiramente? Ou a que eu pertenço verdadeiramente? Se calhar não. Por mais que os meus anjos de lá tornassem tudo melhor, não conseguiam tirar-me de um ambiente hospitalar que transpirava, por tudo quanto era parede, lembranças do motivo de ali estar. Estou em casa há 19 dias, que mais pareceram 7. Cá fora o tempo passa mais rápido, talvez por não estar na ânsia de esperar pela colheita de análises e visita do médico da manhã seguinte - a minha porta de saída de um episódio para começo de um novo, ou entrada num episódio sobreposto ao que estava a decorrer, que tornava sempre tudo mais confuso e intenso. Cá fora estou mais perto do meu caminho e, por isso, de mim. Ou vice-versa, não sei bem. O que parecia oco no dia 5 de Dezembro (dia em que assinei o consentimento) hoje tem muito mais forma e conteúdo. O meu corpo gosta mais deste ambiente. E estas doses diárias do amor de sempre, da energia de sempre e das pessoas de sempre são paralelamente um efeito secundário de um tratamento via oral que não me obriga a estar internada e parte da minha cura, não querendo claro subestimar a importância do medicamento em si.
    Ontem fui presenteada com um maravilhoso amanhecer e um há muito desejado pôr-do-sol na praia. Estive com duas pessoas que já não via há muito tempo (a.c. - antes do cancro). Acredito que essas benesses, entre outras, ajudaram a que uma pálpebra mais esbranquiçada passasse a um tom que representa o coração e o amor. E é encontrando-me no meio de um círculo vicioso que acredito mais neste tratamento, círculo vicioso este estimulado por duas grandes forças: a interior e a exterior, em que a segunda influencia a primeira para que esta abra a sua mente e coração. Tenho neste caminho de transformação anjinhos de mãos dadas comigo. Alguns deles de carne e osso e outros que não vejo, mas que todos os dias imagino, pelo menos no meu ritual de toma de medicação. Aos que estão fisicamente neste mundo comigo, agradeço profundamente o quanto me têm aberto a mente e o coração e por serem um veículo de conexão com os demais.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

📝 Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2023

     4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante.       Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...

📝 Sábado, 7 de Outubro de 2023 - 1 ano (parte 3)

  Outubro de 2022 - Semana do diagnóstico     Foi a 2 de Outubro (Domingo), a subir uma rua na Foz, que todos estes sintomas passaram a conversa séria. O meu pai dava-me um avanço de 20 metros pelo menos e, na brincadeira, disse-lhe que eu é que estava com péssima forma física. Ele não ficou convencido e perguntou-me o que eu sentia. Ao enumerar os sintomas, alarmado, disse que eu tinha de marcar uma consulta urgentemente. Perita em desvalorizar, disse-lhe que durante a semana tratava disso, pois até já estava na altura de fazer as análises anuais. Nos dias que se seguiram, acabei por não dar a devida prioridade ao assunto, refugiando-me na indecisão de a que médico/especialidade deveria ir.     Uma vez que ia ficar pelo Porto, queria ir a um Congresso de Salsa que ia haver no fim-de-semana seguinte (8 e 9 de Outubro) mas preocupava-me sentir que não conseguia dançar uma música completa sem cair para o lado a qualquer momento. E eis que na quart...

📝 Sábado, 17 de Agosto de 2024

     Uma vida que se pode chamar de louca. Não o "louca" de outros tempos, mas o "louca" destes. Que gosto dá celebrar assim a vida, vivendo-a com todas e tantas ferramentas que tenho à minha disposição hoje. Não "todas" as de outros tempos, mas "todas" as destes.     Depois de dias que, de tão preenchidos e corridos que foram, se tornaram semanas e até mesmo meses sem vir aqui ao meu querido caderno, hoje, a 17 de Agosto de 2024, não consegui terminar o dia sem expressar em palavras todas as imagens que me têm vindo à cabeça relativas a este último ano. Foi há um ano o dia em que saí, por fim, do internamento de 45 dias em que fiz o Transplante de Medula Óssea a que sempre chamei de "pior fase da minha vida", em que me encontrei despida de tudo o que me caracterizava, onde deixei de ser a que também nos dava força a nós - aqueles a quem esta maldita doença e tudo o que ela acarreta tocou: eu, a minha família, os meus amigos e os meus p...