Hoje acordei melhor. Com algumas dores mas efectivamente muito menos. O mal tinha saído de mim. Ainda fiz febres e tive pouco tempo útil em que me sentia bem. A minha prima Bárbara veio visitar-me mas, como eu estava a dormir e com febre, não a queriam deixar entrar. Acordei e pedi que a deixassem entrar. Queria muito vê-la e estar com ela. Gosto muito de falar com ela pois teve cancro da mama e é diferente de falar com quem não passou por uma doença oncológica, por exemplo. Partilhámos ideias sobre o processo e ela falou-me das coisas boas que fez por ela para ajudar a curar-se: meditação, terapia, yoga, livros que leu e que me trouxe, ... É um poço de energia! Ainda aproveitámos um bocado do meu momento bom entre febres e o resto foi para o meu irmão. Esse dia foi excepcionalmente dividido com ele, pois só tenho, por norma, direito a uma visita por dia. Com ele ainda falei um bocado mas logo logo voltaram os tremores que geralmente me levavam de novo para a cama, toda tapada, à espera dos 38º de temperatura para pedir o anti-pirético. Ficava nesse estado mais apático, a aguardar por horas melhores, sendo que as febres apareciam de 3 em 3 horas. Lamentava que me vissem assim, que a partir daí tivessem o pior de mim, e que nem um sorriso conseguisse esboçar por vezes, apesar do esforço que faziam para me tentarem animar. A comida chegou e o meu irmão estava preocupado porque não me via com vontade de comer. Nos picos de febre nunca queria fazer nada. Esperava só que o tempo passasse que é algo que me faz muita confusão, pois para mim todos os minutos devem ser vividos de forma produtiva, ou de uma forma diferente desta. O repouso é produtivo para a minha recuperação, mas não é o tipo de produtividade que mais aprecio. Quando passou esse pico, já ele tinha ido embora. Fui comer e até me soube muito bem.
4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante. Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...
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