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📝 Segunda-feira, 24 de Outubro de 2022 - Intern. dia 18

(Ainda com cabelo mas a preparar as pessoas para o que iam passar a ver na semana seguinte. Esta foi a cara/expressão possível neste dia, depois de ceder ao pedido do meu pai para tirar uma foto. No fim pedi-lhe que apagasse porque não gostava do que via. Hoje agradeço ter o registo, afinal... faz parte da história.)

📝 Acordei com dores no segundo cateter. Vi o filme todo a passar na minha cabeça... Fiquei, naturalmente, muito sensível e com medo. Disse logo aos médicos/enfermeiros. Quis que agíssemos o mais rápido possível. Fui ao outro lado do IPO fazer um electrocardiograma para percebermos se estava tudo bem com o meu coração e estava 🙏
    Nesse dia pedi ao meu pai que viesse mais tarde visitar-me para poder dormir antes de ele vir. Tinha muito sono e quis esconder-me do mundo. Fechei a cortina, peguei nas fotografias das minhas meninas (cadelas) e na pedra que trouxe da 4º etapa do Caminho de Santiago e chorei. Estava triste. Precisava daquele cateter e a alternativa era pôr outro na posterior da coxa que, para além de significar uma nova intervenção, tinha maior probabilidade de infecção. A pedra e as fotografias davam-me esperança de que aquilo ia ser só uma fase. De que já tinha vivido etapas complicadas e tinha conseguido ultrapassá-las, de sorriso na cara. E no fim desta, ia ter a recompensa de estar com as minhas meninas.
    Quando o meu pai chegou, deu-me um marcador de livro com a foto do meu sobrinho. Desfiz-me em lágrimas. Por ser um presente tão especial, por ter saudades dele, por querer estar com ele, por querer sair daqui e estar com todos, com os meus, com as minhas pessoas, e desejar que tudo isto não passasse de um pesadelo. O meu pai naturalmente quis consolar-me e disse "Vai correr tudo bem", o que me deixou profundamente irritada e respondi-lhe torto a dizer que não se tratava disso. "Eu não choro porque acho que vai correr mal, mas porque hoje estou sensível e triste.", disse. Falei-lhe de tal forma que ele se afastou e ficou imóvel, com medo de agir. Obviamente senti-me péssima com isso. Tentei explicar-lhe novamente, com calma, porque reagi assim e pedi desculpa. Na verdade, ele não fez nada de mal. A intenção era só reconfortar-me. E por esta situação e muitas outras às vezes sinto que exijo muito das pessoas e que as obrigo activa ou passivamente a moldarem-se a mim. Talvez seja um bom assunto para falar com a psicóloga... Já sentia isto antes e agora sinto mais. Como as pessoas gostam de mim e tendo em conta esta situação específica ainda fazem um esforço maior. Algumas coisas que fui dizendo/pedindo:
  - Não chorem;
 - Não quero que me façam sentir doente e gosto mais de estar com pessoas que não me fazem sentir assim;
 - Mantenham-se optimistas;
 - Não fiquem tristes por causa de uma febre, no meio de tudo isto, isso não é nada.
Sim, muito exigente sem respeitar a forma de cada um lidar com isto.

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