Avançar para o conteúdo principal

📝 Sábado, 3 de Dezembro de 2022 - Intern. dia 13

   Ontem à noite distribuímos as primeiras mensagens, com um dia de atraso devido aos acontecimentos desta semana, mas muito rapidamente operacionalizámos a coisa e pusemos o projecto a andar. Entre eu editar as imagens com as frases, a minha irmã imprimir e trazer-mas e as duas usarmos a visita dela para as recortar ao som dos clássicos de Natal, passaram-se dois dias. Creio que os meus colegas de internamento não estavam a perceber bem a ideia, mas dei um desconto, pois foi a seguir ao jantar e provavelmente já estavam mais para lá do que para cá. Hoje fizemos de forma diferente e distribuímos as mensagens depois do almoço à procura de uma janela de maior lucidez. Duas pessoas perceberam e gostaram. Pude dizer-lhes "Olá" e falar com elas da porta. Por um lado, desanimei, pois achei que mais pessoas iam valorizar, mas por outro pensei que, mesmo que fosse só por aquelas duas, já valia a pena. Além disso, para as visitas também poderia ser agradável, pois é sempre mais um tema de conversa e pode trazer-lhes algum ânimo, pelas piadas em si e por saberem que há uma tentativa de proporcionar algum espírito natalício a quem está internado. E por último, a concretização do meu objectivo termina na minha acção, no que eu tento fazer pelos outros, na minha intenção. A forma como eles reagem é outra história que eu não controlo. Claro que se pode traduzir em felicidade adicional, mas a minha felicidade não pode depender unicamente disso.
    Hoje aproveitei o tempo em que estive a recortar sozinha para pensar. Pensamentos que surgiram de forma muito natural pelo simples facto de eu estar feliz a recortar papel. Como já partilhei aqui, nunca me questionei sobre o porquê de isto me estar a acontecer, mas pergunto muito: "O que é que a vida me quis dizer?". Talvez para muitas pessoas esta pergunta não faça sentido, pois não vêem estas coisas de uma forma espiritual. Mas ver as coisas desta forma ajudou-me a aceitar algo que a Medicina não me conseguiu justificar: o meu cancro. Apesar de ter uma vida que para muitos seria de sonho, para outros nem tanto, mas que me satisfazia bastante, sempre houve em mim uma questão muito inquietante: estarei eu a cumprir a minha missão de vida? E, para responder a isso, tentei encontrar significado no que fazia, principalmente a nível profissional. Sendo que eu era supervisora de uma equipa, achava que podia impactar positivamente a vida das pessoas que a formavam, tentando ajudá-las no seu crescimento e realização profissional e pessoal. Ter adoptado duas cadelas também me convenceu de que estaria a dar algo mais a este mundo. Mas, como sempre tive consciência, se o objectivo era ter um jarro cheio de sumo, continuar a espremer laranjas das quais só restava a casca não me ia fazer chegar lá. No entanto, por mais que fosse dando voltas à cabeça, nunca obtive uma resposta, um caminho claro. E foi então que, naquele momento, me questionei sobre o porquê de estar feliz a recortar papel. Uma actividade nada estimulante a nível intelectual ou cognitivo. E percebi que não era pela actividade em si, mas pelo significado que tinha. Com tanta introspecção, as ideias do que mais me poderia dar esse grau de satisfação foram surgindo:
  1. Agregar conselhos e actividades que ajudaram pessoas a passar por isto melhor. Tenho as minhas, as da minha prima e as de outra pessoa. Depois posso tentar chegar a mais pessoas para recolher as suas sugestões e no fim arranjar uma forma de divulgar
  2. Perceber que associações existem para acompanhamento e reintegração da pessoa com doença oncológica e fazer parte de uma
  3. Perceber se quero partilhar a minha história, com quem, quanto e como
  4. Fazer uma lista de receitas com todas as restrições que tenho e dicas sobre a parte logística.
Talvez a vida só tenha querido aproximar-me da minha verdadeira missão e, com a certeza de que o final deste capítulo da minha vida será feliz, talvez aquilo que eu considerava ser um desvio seja, afinal, o caminho certo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

📝 Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2023

     4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante.       Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...

📝 Sábado, 7 de Outubro de 2023 - 1 ano (parte 3)

  Outubro de 2022 - Semana do diagnóstico     Foi a 2 de Outubro (Domingo), a subir uma rua na Foz, que todos estes sintomas passaram a conversa séria. O meu pai dava-me um avanço de 20 metros pelo menos e, na brincadeira, disse-lhe que eu é que estava com péssima forma física. Ele não ficou convencido e perguntou-me o que eu sentia. Ao enumerar os sintomas, alarmado, disse que eu tinha de marcar uma consulta urgentemente. Perita em desvalorizar, disse-lhe que durante a semana tratava disso, pois até já estava na altura de fazer as análises anuais. Nos dias que se seguiram, acabei por não dar a devida prioridade ao assunto, refugiando-me na indecisão de a que médico/especialidade deveria ir.     Uma vez que ia ficar pelo Porto, queria ir a um Congresso de Salsa que ia haver no fim-de-semana seguinte (8 e 9 de Outubro) mas preocupava-me sentir que não conseguia dançar uma música completa sem cair para o lado a qualquer momento. E eis que na quart...

📝 Sábado, 17 de Agosto de 2024

     Uma vida que se pode chamar de louca. Não o "louca" de outros tempos, mas o "louca" destes. Que gosto dá celebrar assim a vida, vivendo-a com todas e tantas ferramentas que tenho à minha disposição hoje. Não "todas" as de outros tempos, mas "todas" as destes.     Depois de dias que, de tão preenchidos e corridos que foram, se tornaram semanas e até mesmo meses sem vir aqui ao meu querido caderno, hoje, a 17 de Agosto de 2024, não consegui terminar o dia sem expressar em palavras todas as imagens que me têm vindo à cabeça relativas a este último ano. Foi há um ano o dia em que saí, por fim, do internamento de 45 dias em que fiz o Transplante de Medula Óssea a que sempre chamei de "pior fase da minha vida", em que me encontrei despida de tudo o que me caracterizava, onde deixei de ser a que também nos dava força a nós - aqueles a quem esta maldita doença e tudo o que ela acarreta tocou: eu, a minha família, os meus amigos e os meus p...