Um dia cheio de emoções. Expectativa minha de que ia ter alta e desilusão por, pela manhã, não haver uma clara perspectiva disso. Nova ginástica mental e lista de prós e contras escrita para me ajudar a aceitar o possível prolongamento do internamento, por tempo indeterminado, como tudo neste processo. Situação aceite e foco nas actividades do dia com boa disposição. Umas horas depois, nova bomba cai e a possibilidade de alta volta para cima da mesa depois de eu já ter ingerido uma boa dose de "aqui estou mais segura e relaxada do que em casa" num compromisso que estabeleci comigo de aproveitar o lado positivo do que viesse no menu dos próximos dias. Respondi de imediato "não estou preparada", como quando já estamos satisfeitos depois de um bom repasto e alguém na mesa se lembra de sugerir avançar para a sobremesa. Normalmente, após um período de digestão e reflexão, percebemos que há sempre espaço para aquele docinho. E assim foi hoje comigo. Reli os prós e contras de ir para casa e, confiando na mistura de ingredientes daquela receita, sem pensar no sabor individual de cada um, comi-a até ao fim. Afinal, alguém comeria a farinha do bolo de chocolate? A alta ficara planeada para o dia seguinte e, apesar da correria em que anda diariamente para chegar a todos e mais alguns de forma exímia, a santa nutricionista fez-me uma visita para me dar algumas luzes sobre o que seria o meu plano alimentar neste regresso a casa. Como sempre, não se ficando por aí, tratou de me assegurar um prato especial para a minha última refeição. Decidi que seria um momento para eternizar na minha memória e, com os recursos que tinha, resgatei mais uma parte de mim: a Joana que faz de um jantar banal um momento especial, para saborear até ao mais ínfimo pormenor, simplesmente porque sim, porque a vida merece ser vivida e celebrada, em qualquer circunstância, desde que seja essa a nossa vontade. Liguei a luz mais agradável do quarto, na impossibilidade de acender as minhas velas cujo stock nunca faltava na minha casa; sentei-me confortavelmente no cadeirão, na ausência do meu sofá da sala; pus uma Bossa Nova a tocar, algo que faria igualmente em casa pois quando quero retirar prazer máximo de uma refeição prefiro não ter grandes distracções e isso por norma implica eu ser péssima oradora e por vezes muito má ouvinte; e, por último, não podendo servir-me de um copo de vinho tinto, assim comi o meu prato especial, a minha pizza. Degustei cada pedaço, apreciando o momento, mas permitindo-me navegar por um passado repleto de memórias destas e por um futuro que espero que também o seja. Uma pizza cujos ingredientes principais eram amor, dedicação, superação, compaixão, celebração, esperança e generosidade, preparada por todos os profissionais deste hospital que contribuíram para este internamento de sucesso a todos os níveis. Uma pizza que me soube a vida. Uma pizza que me permitiu voltar a fazer as pazes com ela e agradecer-lhe pelo que de bom ainda me dá. A cereja no topo do bolo? Sessão de cinema em que revi o filme "The Pursuit of Happyness".
4 meses. Sim, já passou todo este tempo. Mas tudo isto continua a parecer uma eternidade por todo o tempo que poderá faltar. Começo a sentir cada vez mais a ânsia de chegar ao fim. No entanto, já percebi que ganho mais se a contrariar e se tentar pensar em aproveitar este tempo e focar no presente enquanto a recuperação decorre, em vez de estar desejosa por passar para a próxima etapa. Na verdade, ainda há algumas coisas que quero fazer antes do transplante. Na semana passada esta ansiedade tornou-se incapacitante. Andei sem vontade de fazer nada e perguntas como "Queres fazer isto ou aquilo?" faziam-me desatar a chorar por me sentir totalmente perdida, sem rumo, por não ter resposta para uma pergunta aparentemente simples. Por um lado, só queria estar sozinha, com o meu querido caderno, que sabia que definitivamente só me ia ouvir, sem qualquer retorno: genuíno, por compaixão; ou forçado, para calar um silêncio que pode revelar-se doloroso ...

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